O meu livro garrafa

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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Depois...

Depois, nada se extingue com a partida. [é assim que cantam as chamas dentro do meu peito]
No depois acendem-se de novo as ausências, como se em permanência me quisessem castigar - sorrio-lhes! - Porque não é disso que se trata.
Depois, chegas de novo e deixas-me continuar a sonhar. Para sonhar, embalo-me na tua pele como se quisesse os teus sonhos a papel químico no meu corpo. Sonha comigo os mesmos sonhos para que depois, retornemos ao plano das emoções longínquas, de todas as estradas que nos separam e de todas as pontes que existem entre nós.
Depois, retiro-me no odor inebriante do teu corpo e perpetuo o teu abraço de alma. E os meus olhos sorriem o sorriso mais puro da sintonia. É sempre assim, depois.
E depois, queima-se-me o corpo, arde-me a pele da falta e dentro do coração todos os pássaros acordam e levantam voo, e as veias que me riscam o ser quase desatam a chorar. [é assim que o sangue me corre cá dentro]
Depois, fico eu. [a tua...]
Depois, ficas tu. [o meu...]

Para sempre, depois...

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Segredo

Venho contar-te um segredo. 

Quando se aproximam as noites que tanto temo, e chega a hora em que tenho de fechar os meus olhos ao Mundo, não me contenho. É nessas alturas que deixo que as lágrimas expurguem tudo o que vai cá dentro. Tudo o que a água do duche não foi capaz de fazer desaparecer pelo ralo. E quando finalmente as lágrimas embalam o meu sono para outra dimensão, eu reinvento os meus sonhos por concretizar, eu perdoo quem me magoou, mesmo sem saber, e perdoo-me a mim própria por alguns julgamentos fáceis em que incorri, movida pela pressão desta sociedade manipuladora da qual procuro fazer parte, sim, mas à minha maneira e tentanto não me deixar apenas levar na corrente. 

E venho aqui ter contigo, e aqui te encontro sempre. E aqui continuo a agradecer todos os dias por te ter conhecido. Tu não entendes muita coisa, mas eu também não sei explicar melhor. Sei que me entrego na plenitude do meu Ser, mas isso nunca parece ser o suficiente, mas não me arrependo. Onde estou só sei estar inteira. Tu ouves-me, e eu sinto-me bem. Depois passa, e eu sinto-me perdida. Vagueio pelos corredores da minha solidão como se esta pudesse ter um fim, mas percebo sempre que por muito que os meus passos acelerem, por muito que pareça estar a alcançar o fim, afinal era só e apenas mais uma curva no caminho. não desisto, porém... 

Quando penso que acordo, vejo-me menina, de olhar cheio de Esperança e Amor, encarando o Mundo da minha janela aberta e vendo sempre algo de bom, mesmo quando aparentemente nada era bom de facto. Quero de volta essa ingenuidade que a vida adulta tenta roubar-me... 

Afinal não tinha acordado, tinha apenas passado a uma outra dimensão de um mesmo sonho. Neste se misturam imagens difusas de uma menina, acho que sou eu mesma, correndo num labirinto de encruzilhadas, primeiro com um sorriso estampado no rosto e uma alegria imensamente infantil, mas depois, subitamente, deixando-se tomar por uma expressão facial de angústia, medo e dor, motivada pelas tomadas de decisão a que era obrigada cada vez que o caminho se desmultiplicava em mil direcções. 

Acordei, agora sei que acordei, em sobressalto, com mil cavalos no lugar em que eu julgava devia estar o meu coração, batendo a compasso. Subi apressada às águas furtadas como se à minha espera estivesses tu, para que eu pudesse apaziguar a minha alma com o meu olhar. Lá estavas tu, sentado , encarando a lua cheia numa noite morna. Aproximei-me de ti, e inexplicavelmente tomei o teu lugar, tornando-me tu próprio em mim. Diz a ciência que dois corpos não ocupam o mesmo espaço, mas eu não sou de ciências, sou de letras. Como tal eu digo, dois corpos podem ocupar o espaço de uma única Alma. 

Onde quer que estejas eu estou contigo... e esse é o segredo!

[Abril 2011]

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Uma página em branco

Continuo aqui, enfrentando esta folha de papel em branco, apurando os meus sentidos para lhe sentir o toque macio e o cheiro quente. A caneta parece não me ser de serventia, parada na minha mão, e o meu pulso parece não se querer mexer, naquele movimento frenético do costume, quando inspirada, desenrolo as palavras e as derramo no papel. Gosto de desenhar cada letra na minha peculiar caligrafia, observando a forma mágica como as palavras se vão formando originando, tantas vezes, sentimentos avessos e até desconhecidos. Gosto do cheiro da tinta permanente, afirmativa, cheia de personalidade, que marcará de forma indelével aquela folha de papel que já foi em branco e agora já não o é mais.
Assim somos nós, como uma folha em branco a cada novo capítulo. Não vale a pena sequer tentarmos arrancar as folhas que albergam as passagens que menos nos agradam, do livro da nossa vida. Todos esses parágrafos terminam num ponto final, no pressuposto, mais que justo, de que todo o fim implica um novo começo. E em cada novo começo, uma nova página em branco.
Neste livro que faz prova provada da nossa passagem pela Vida, muitas vezes não somos nós quem escreve, mas tantas vezes somos só nós quem lê… Somos também como que um livro de visitas, que tanta gente que passa vai assinando, ou como um livro de autógrafos, onde recebemos as palavras que outros nos querem oferecer e dessa forma nos vamos fazendo gente, nos vamos deixando crescer em liberdade de sermos, não só nós, mas todos aqueles que de uma forma ou outra fazem parte da nossa vida, nos escolheram ou por nós foram escolhidos.
Nos momentos mais positivos, atrevo-me a retirar determinados capítulos mais difíceis da prateleira,  folheando cuidadosa e demoradamente cada página, tentando entender algo de novo que no calor da situação e na cegueira da emoção tenha deixado escapar. Estes capítulos são apenas para ser remexidos quando sentimos dentro de nós a força e coragem suficientes e saberemos que as feridas, se as houver, estarão saradas no dia em que as lágrimas deixarem de rolar a cada leitura, ou isso, ou então secámos definitivamente e perdemos a capacidade de sofrer. Tenho medo! Mais ainda de perder a capacidade de amar…
(...)
Era Verão, participava de uma fuga lenta a um amor que não lhe estava destinado, quase que estava já convencida de que tinha virado a página, já não perdia a respiração quando o via, já não tremia quando lhe falava e tudo estava dentro dela mais pacífico desde que a sua determinação, que ainda hoje não sabe bem onde a foi buscar, a fez ter a coragem de assumir de que estava na hora de encerrar aquele capítulo. Um capítulo escrito de rosas vermelhas, símbolo do amor, e dos espinhos dessas mesmas rosas, inundado de lágrimas salgadas e de melodias que lhe conferem, ao capítulo, um especial “quê” no livro da Vida.
Já sorria, os dias já não se arrastavam, o Sol já brilhava de novo dentro de si, e ali estava ela perante nova folha de papel em branco, sentia que de novo o Amor a podia conquistar, estava disponível para que isso pudesse acontecer, sentiu-se de novo tremer, sentiu de novo que a respiração lhe falhava e que o chão não estava mais no lugar. Porém, cedo se revelou de que afinal, a folha não estava em branco… como que de repente surgiram páginas e páginas seguidas de uma história que já havia sido escrita. Surgiram do nada sem que ela pudesse fazê-las parar. Queria deter a crueldade daquelas palavras, queria apagar o sentido daquela história, mas estava escrita a tinta permanente, e ela sabia de que nada adiantava arrancar as folhas, pois também permanentemente ficaria inscrita no livro da sua vida. Por momentos, longos momentos, perdeu a noção de si, quem era afinal, de que era feita, o que a movia!?
Porquê!?
Tomou então as rédeas da escrita, e no meio da folha vazia, cheia de branco, macia, cheirando ainda a virgem, derramou a palavra que a seguir se dita:

FIM!

[Janeiro de 2011]